domingo, 30 de novembro de 2008

Mafalda de Quino



Mafalda é muito antiga, embora como qualquer personagem de HQ tenha sempre seis anos. Mafaldinha, a gordinha argentina de cabelos rizados tão altruísta e preocupada pela situação do mundo de seu tempo talvez entristeceria em saber que o mundo continua igualzinho ao de sua época, e que crianças como ela crescem e são obrigadas a sufocar os gritos de suas almas, tornando-se medíocres e iguais a todo mundo.
Identifico-me com seu personagem, e espero que um dia tudo possa ser como sonhamos, e o mundo se possa curar com uma injeção, como na mirada esperançosa e fácil de uma criança.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Devolva-me


“Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...”

(Luiz Vaz de Camões. In: http://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes37.html)


Foto por Valeria. Raimon e Milosz em casa. Palamós, Novembro de 2008.

Lá fora o vento gelado uivava recordando que chegara o outono, movendo as folhas caídas no chão em um balé exclusivo e nós fazíamos fumaça com o hálito enquanto caminhávamos de mãos dadas, sozinhos pelas ruas vazias.
Lá dentro a voz doce e o olhar triste de Adriana Calcanhoto apontavam um caminho sombrio que tememos, e teus olhos brilhavam molhados pelas palavras que ela repetia olhando em tua direção“o retrato que eu te dei se ainda tens não sei, mas se tiver devolva-me”.
Por um momento também entristeço-me ao pensar tal possibilidade, mas logo volto a mim e sinto feliz a emoção de estar pela primeira vez a ouvir ao vivo aqueles versos que muitas vezes tomamos emprestados para jurar-nos amor, e segura de que em nossa vida nunca haverá um Devolva-me.
Em um quarto de hotel refazemos as promessas, nos amamos, e adormecemos felizes abraçados, esperando juntos a chegada de uma nova primavera.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Efemeridades

"E o meu coração embora finja
fazer mil viagens
fica batendo parado naquela estação."
(Caetano Veloso. Naquela estação. )

Foto by: Raimon Gil. Chico abstraído

Gosto de sentir saudade, ainda que seja ela o amargo e pesado fardo que necessito levar para chegar às remotas lembranças felizes, como um alpinista que arrisca sua vida para viver uma momento no topo de uma montanha, o inesquecível prazer da conquista, de superar limites e... nada mais.
Poucos entendem os alpinistas, e poucos entendem os saudosistas.
Saudade é como o álcool, que gera um estranho prazer em degradar-se, em provar a resistência, em tentar perceber o limite das coisas, e há quem creia que ela existe apenas para quem a deseja, será o repúdio que a aproxima?
Saudade e solidão está em nós mesmos, em ideais, em desejos, objetivos, sonhos, no que buscamos para nossas vidas. É escolha pessoal, é estado de espírito. É bom estar só, o mal é ser só. É bom sentir saudade, o mal é viver de saudade.
Difícil sofrer a dor que ela causa, mas pior é não ter um bom motivo para senti-la, não ter do que recordar. Pior a eternidade no vazio que explodir no excesso. Efêmero? Talvez... Mas a vida não é completa sem os dois lados, o equilíbrio, o yin e o yang... Os sentimentos hão de ser híbridos para valer a pena serem vividos. Como reconhecer o prazer sem conhecer o dissabor?

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