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Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Esconderijos do Tempo


O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
sem fim e sem sentido...
dessas que a gente inventava para enganar a solidão dos

[caminhos sem lua.
(“Os retratos”.Mario Quintana. Esconderijos do Tempo pg. 67)
Foto por: Valeria Araújo. Em Torre de Belém, Lisboa. Fev/2009

Voltar aqui e encontrar tudo como deixei ainda assim sentir.me uma estrangeira é como afogar-me em um oceano de lembranças. Minha alma saudosista transporta-me à parede memorável de minhas recordações, e noto que os sorrisos nas fotos se estão apagando... Cronos que tudo devora!

Tudo muda rapidamente em um ínfimo intervalo de tempo e as lembranças me sufocam, e penso também que voltar é como ter outra vez oito anos e minha bicicleta vermelha, sentir o vento nos cabelos, a cabeça cheia de sonhos, uma vida que parece infinita à minha frente e um sorriso eterno nos lábios.

Mas o vento quentíssimo e molesto e a vida já não eterna como antes me devolvem à realidade dos anos que passaram, e a bicicleta vermelha está enferrujada, metáfora dos sentimentos nobres das crianças quando crescem.

Dar-me conta que cresci é deixar que e a vida me faça perceber a mais dura e real distância entre as pessoas, que não é a física, mas é a que sinto quando as tenho em silêncio ao meu lado, como estranhos, sem nada para dizer.

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Apenas um rapaz latino-americano





Homenagem ao meu grande amigo e - por sorte - também meu irmão Emilio Gonzalez. O texto abaixo é dele... Amo-o!!

... Na verdade, sou apenas aquilo que sobrou de uma criança suja de terra que sonhava entre brinquedos de plástico, árvores, tijolos e cachorros de estimação num quintal de terra nos idos dos anos 80 em Foz do Iguaçu; de um menino que andava de bicicleta pelo interior de São Paulo enquanto sonhava em viajar pela América Latina e sempre quis ser algo mais do que um simples auxiliar de jardineiro que recolhia folhas secas e galhos de árvores nos jardins alheios; sou aquele que se sentava no fundo de uma sala de aula por ter vergonha do tênis encardido, da barba precoce e de não frequentar as mesmas "baladas" e namorar as mesmas meninas que a maioria dos meus colegas desejavam; sou o estudante de História que lutava para mudar a realidade, e que sente orgulho por ter pelo menos mudado a sua própria; sou aquele que nunca pôde acumular mais do que malícia, experiências e muitas, mas muitas mesmo, amizades sinceras, verdadeiras e eternas, e tem nelas o maior e único patrimônio...
Enfim, sou o que sobrou de um simples e humilde rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, mas que sempre soube experimentar o mundo, suas supresas e tragédias de forma positiva, como um eterno aprendizado, para o bem e para o mal. Hoje, tenho a chance de recomeçar tudo de novo, e, atônito, vejo também o que deixei pra tráz e aquilo que gostaria de ter feito diferente. Quanto ganhei e quanto perdi? Ainda não sei mensurar, mas só posso dizer uma coisa: a vida já valeu a pena...

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

Flor da pele



Video de "Flor da Pele", musica do grande Zeca Baleiro que nesta tarde fria me faz companhia enquanto espero alguém que demora muito a chegar...
Nao sei porque os sentimentos doem tanto em nós a ponto de tornarem-se inesquecíveis, incansáveis cavaleiros do apocalipse um após outro derramando suas taças amargas.
Só serei completamente feliz quando esteja ao meu lado, e a possa cobrir à noite antes de dormir, olhar seus olhos e dizer a ela que que é o melhor presente que a vida me deu, mas até que chegue este día continuo à flor da pele, sofrendo e esperando incansável.

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Saudade


Hoje bateu uma saudade ainda pior que as de sempre...
Às vezes penso que se saudade é doença estou enferma, e se mata morrerei dela.
Saudade dessa mal curada, acumulada de outras anteriores curadas com chazinho meia-boca, que machuca o peito, incomoda e faz doer os olhos até saírem lágrimas sem a gente perceber...
Saudade dessa que a gente ri de contente em lembrar das coisas e subitamente entristece quando torna a si e vê que é só uma lembrança que se esvanece como um fantasma do tempo, fumaça de um fogo que está no final...
Saudade das coisas boas e medo de nao revivê-las.
Saudade é minha sina amarga.

Domingo, 30 de Novembro de 2008

Mafalda de Quino



Mafalda é muito antiga, embora como qualquer personagem de HQ tenha sempre seis anos. Mafaldinha, a gordinha argentina de cabelos rizados tão altruísta e preocupada pela situação do mundo de seu tempo talvez entristeceria em saber que o mundo continua igualzinho ao de sua época, e que crianças como ela crescem e são obrigadas a sufocar os gritos de suas almas, tornando-se medíocres e iguais a todo mundo.
Identifico-me com seu personagem, e espero que um dia tudo possa ser como sonhamos, e o mundo se possa curar com uma injeção, como na mirada esperançosa e fácil de uma criança.

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Devolva-me


“Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...”

(Luiz Vaz de Camões. In: http://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes37.html)


Foto por Valeria. Raimon e Milosz em casa. Palamós, Novembro de 2008.

Lá fora o vento gelado uivava recordando que chegara o outono, movendo as folhas caídas no chão em um balé exclusivo e nós fazíamos fumaça com o hálito enquanto caminhávamos de mãos dadas, sozinhos pelas ruas vazias.
Lá dentro a voz doce e o olhar triste de Adriana Calcanhoto apontavam um caminho sombrio que tememos, e teus olhos brilhavam molhados pelas palavras que ela repetia olhando em tua direção“o retrato que eu te dei se ainda tens não sei, mas se tiver devolva-me”.
Por um momento também entristeço-me ao pensar tal possibilidade, mas logo volto a mim e sinto feliz a emoção de estar pela primeira vez a ouvir ao vivo aqueles versos que muitas vezes tomamos emprestados para jurar-nos amor, e segura de que em nossa vida nunca haverá um Devolva-me.
Em um quarto de hotel refazemos as promessas, nos amamos, e adormecemos felizes abraçados, esperando juntos a chegada de uma nova primavera.