Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas.
Daí esse ar aliviado e triste dos fumantes solitários.
Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?
Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas.
Daí esse ar aliviado e triste dos fumantes solitários.
Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?
Són protagonistes
d’uma epopéia que já fou:
[São protagonistas
d’uma epopéia que já foi:
(Manuel Forcano. Pasteres. In: LLei d’estrangeria pg.11. Ed. Proa. Barcelona, 2008)

O inverno chegou um pouco mais tarde naquele ano e muito mais intenso em minha alma, esboço da sala mal iluminada pela claridade de um e outro relâmpago da tempestade que era densa e melancólica, e eu imersa na penumbra me punha a rabiscar um futuro que não existia embora eu esperasse, metáfora do homem solitário que se senta todos os dias no mesmo lugar de sempre a desenhar o corpo nu da mulher que não encontrou e minha alma era desespero e a solidão de um cachorro faminto abandonado à própria sorte nas gélidas ruas da cidade sombria e vazia, e a impotência, a impassibilidade dilaceravam meu coração, e porque à vida lhe agrada amargar o sentido íntimo das coisas o futuro era fosco como a névoa espessa e a fumaça do café perdia-se no escuro apontando a incerteza dos dias de tempestade que viriam.
Desejava fugir, queria ser como um eletrodoméstico com botões, luzes e off, mas a realidade ameaçadora advertia-me como as gotas da chuva na vidraça naquela noite de domingo que foi a mais fria, escura, negra, solitária, aterradora e vazia...
E ainda que em minhas recordações de infância não houvessem bicicletas enferrujadas e mais solidão que antes, consegui encontrar em tua compreensão um espaço íntimo para as minhas plantas e toda a minha desolação e te amei porque me fizeste perceber que éramos dois a ver o cartaz de fechado porque estávamos do lado de dentro, e que para transformar as coisas bastava abrir a porta, sair e enfrentar o temporal.
Hoje faz um ano que encontrei a tua solitária companhia e enquanto escrevo os meus dedos rebuscam a tua pele branca contrastada no azul dos lençóis, e felizes em nossa solidão queda a certeza de que somos dois a contradizer o temporal.