segunda-feira, 25 de julho de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A um ausente

A UM AUSENTE
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
(Carlos Drummond de Andrade)
quarta-feira, 2 de março de 2011
Manual de Felicidade
(Adélia Prado. AS MORTES SUCESSIVAS. In: Bagagem
(Foto: Raimon Gil. Salamanca, Espanha. Jan/2011)
Eu ando com tanta saudade de casa…
Minha casa, a casa de minha infância, aquela onde fui completamente feliz! Então fecho os olhos e viajo por minhas lembranças, buscando os detalhes, as cores, os cheiros, os sons, lutando para mantê-la viva em minha memória.
Minha casa tem cheirinho de café fresco e de pão quentinho em um fundo de limpeza e a voz de minha mãe dizendo “desce da lua e vem merendar!” (se eu fosse perfumista criaria uma essência desses olores, e a chamaria “felicidade”).
Esse cheirinho transporta-me a um tempo em que eu ainda não conhecia nenhuma das dores da madureza, e quando meu universo era o bairro onde eu morava, e tudo era longe, tanto o centro de São Paulo quanto o Japão pra mim então tinham a mesma distância, meu mundo era minha casa, e a única preocupação que eu tinha era ver se meus experimentos tinham dado certo ou pensar de que eu poderia brincar quando armava chuva.
Também me lembro dos dias de chuva, e principalmente quando somado a isso tinha frio, e a mãe assava batata doce na brasa do fogão à lenha, ateava o fogo e preparava café...
Esse cheiro também está vivo em mim; o do café com gosto de fumaça, de batata doce assada, e o som do pai contando (e rindo) as histórias de sempre de sua infância em Portugal, de seus primeiros anos no Brasil, e escrevendo à giz números nas vigas do telhado. Esses números eram como códigos secretos, as chaves do cofre de suas lembranças e ele sabia o significado de todos como se esses números fossem fotos, arquivos de suas lembranças.
O tempo passa e as pessoas se vão; pra longe, pra perto, pra sempre, mas se vão.
Acho isso muito injusto...
Se eu um dia eu for pro céu perguntarei a Deus por que é que Ele nos dotou de paixão se era para tirar aquilo que mais amamos.