Há um grotesco espetáculo que ninguém quer assistir. Um concerto burlesco composto pelos gritos esfaimados de crianças e da solidão que consome a alma, o soluço discreto dos imigrantes que perderam a dignidade, as cores chamativas dos adornos baratos das putas e o gris encardido dos mendigos famintos e imundos nas ruas sujas e tristes do subúrbio das cidades. Todos temos fome de alguma coisa... E sou eu, somos nós parte do princípio da dor e do sofrimento, contudo pensar nisso cansa-me e preferindo ignorar não compreendo a mediocridade de meu ato, sigo passiva à dor, e alheia à poesia como quem consome um alucinógeno compro-me uma bolsa Mandarina Duck.
"Quando acaba a música apenas fica o ruído da cidade, o vazio incomensurável da noite. Desejaria o nada-mais antes que a tua ausência." (Raimon Gil Sora in: Mounir Troudi)
O inverno chegou um pouco mais tarde naquele anoe muito mais intenso em minha alma, esboço da sala mal iluminada pela claridade de um e outro relâmpago da tempestade que era densa e melancólica, e eu imersa na penumbra me punha a rabiscar um futuro que não existia embora eu esperasse, metáfora do homem solitário que se senta todos os dias no mesmo lugar de sempre a desenhar o corpo nu da mulher que não encontrou e minha alma era desespero e a solidão de um cachorro faminto abandonado à própria sorte nas gélidas ruas da cidade sombria e vazia, e a impotência, a impassibilidade dilaceravam meu coração, e porque à vida lhe agrada amargar o sentido íntimo das coisas o futuro era fosco como a névoa espessa e a fumaça do café perdia-se no escuro apontando a incerteza dos dias de tempestade que viriam.
Desejava fugir, queria ser como um eletrodoméstico com botões, luzes e off, mas a realidade ameaçadora advertia-me como as gotas da chuva na vidraça naquela noite de domingo que foi a mais fria, escura, negra, solitária, aterradora e vazia...
E ainda que em minhas recordações de infância não houvessem bicicletas enferrujadas e mais solidão que antes, consegui encontrar em tua compreensão um espaço íntimo para as minhas plantas e toda a minha desolação e te amei porque me fizeste perceber que éramos dois a ver o cartaz de fechado porque estávamos do lado de dentro, e que para transformar as coisas bastava abrir a porta, sair e enfrentar o temporal.
Hoje faz um ano que encontrei a tua solitária companhia e enquanto escrevo os meus dedos rebuscam a tua pele branca contrastada no azul dos lençóis, e felizes em nossa solidão queda a certeza de que somos dois a contradizer o temporal.
“Felizmente existe o álcool na vida” (Manuel Bandeira. Na boca. In: Estrela da Vida Inteira. pg. 140. Ed. Nova Fronteira)
Encontrei algumas fotos e folhas manuscritas soltas nas caixas empoeiradas da memória. Revivi os dolorosos momentos já esquecidos, mal gravados e apagados como um velho filme e senti outra vez a amargura dos dias sem sol que emboloram a alma e enegrecem os sentimentos, a tristeza e o amargo da solidão e da saudade. Nem sempre recordações são felizes, e não se pode apagar o passado como se nunca houvera existido. O pânico domina minha alma que é triste e obscura como a lua semi-encoberta por nuvens negras nas noites geladas do inverno, e a mente atordoada faz-me sentir o desespero adentrar meus ossos, e minhas pupilas dilatadas pelas lágrimas da alma moída, diluída pela possibilidade... Memórias são torturas... Desejaria apenas que o presente fora imutável...
As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano)
Canto Geral (Pablo Neruda)
Cem anos de solidao (Gabriel Garcia Marques)
Confesso que vivi (Pablo Neruda)
De moto pela América do Sul (Ernesto "Che" Guevara)
De Profundis (Oscar Wilde)
Diálogos de Platao
La pell de Brau (Salvador Espriu)
O caçador de pipas (khaled Housseini)
Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade)
Valéria Araújo
Palamós, Girona, Catalunya, Spain
Minha mae dizia que eu tenho bicho-carpinteiro que nao me deixa parar quieta. É porque gosto de sentir, ouvir, tocar, provar, experimentar. Gosto das sensaçoes que o experimentalismo proporciona.
Interesso-me por cultura geral, Literatura, boa música e manifestaçoes artísticas em geral. De resto sou assim, meio normal, meio lunática...